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Expatriados do Brasil: Emigração bate recorde em meio a desafios econômicos e envelhecimento populacional

Publicado em 01-04-2024
Expatriados do Brasil: Emigração bate recorde em meio a desafios econômicos e envelhecimento populacional Comunidade brasileira no exterior cresce 2,6 milhões em uma década e hoje supera população do estado da Paraíba

Porto Velho, Rondônia – Nunca houve tantos brasileiros morando fora do país quanto hoje. Se formassem um estado, a comunidade de 4,5 milhões de pessoas no exterior superaria a população da Paraíba. Apenas na década de 2012 a 2022, mais de 2,6 milhões de brasileiros deixaram o país, com um salto nas emigrações em dois anos marcados por crises: 2013 e 2020.

Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, o sentimento de que a grama do vizinho é mesmo mais verde é preponderante entre jovens e profissionais altamente qualificados — um cenário desafiador para o Brasil, que se vê diante de uma população em constante envelhecimento, ao mesmo tempo em que enfrenta a carência de mão de obra especializada em importantes setores para o desenvolvimento econômico, como pesquisa e inovação.

Para o sociólogo Rogério Baptistini, da Universidade Mackenzie, a percepção pessimista sobre o futuro foi um catalizador do fenômeno.

— Em 2013, o consumo das famílias registrou aumento pelo décimo ano consecutivo, mas foi o menor desde 2003. As pessoas que haviam ascendido socialmente e formado uma nova classe média passaram a ter dificuldades para manter a posição conquistada —analisa. — Fatores externos e internos contribuíram para a desaceleração do crescimento da economia, mas foram os domésticos que redundaram na crise que abalou todo o sistema da representação. Essa emigração é devido à morte da esperança: as pessoas já não esperam do futuro e não confiam nos políticos.

O processo se intensificou nos anos que se seguiram, com a crise política interna e a econômica, agravada ainda mais pela pandemia, em 2020.

De acordo com os dados mais recentes do Ministério das Relações Exteriores, de 2022, dos 4,5 milhões de brasileiros em situação legal na diáspora, 45% vivem na América do Norte, 32% na Europa e apenas 14% migraram para um dos vizinhos na América do Sul.

Na série de reportagens que começa neste domingo, O GLOBO mostrará o que está por trás do fenômeno e seus efeitos. A partir de amanhã, vamos contar a história de pessoas que vivem nos cinco principais destinos da comunidade brasileira: Estados Unidos, Portugal, Paraguai, Reino Unido e Japão.

— Como em todo fluxo migratório, um fator inevitável continua a ser a busca por melhores condições econômicas, culturais e sociais, o que pode ser percebido pelo ponto de destino desses brasileiros: a maior parte para a América do Norte e a Europa Ocidental — aponta Marta Mitico, presidente da Associação Brasileira de Especialistas em Migração e Mobilidade Internacional (Abemmi).

— O número de brasileiros no exterior cresceu 47% na última década, enquanto o percentual da população interna foi de apenas 6,5% no mesmo período.
Falta de perspectiva

Uma pesquisa Datafolha feita com jovens de 12 capitais brasileiras em 2022 revelou que 76% deles têm muita ou alguma vontade de deixar o país para sempre. E quanto menor a idade, maior o desejo: entre a população de 15 a 19 anos, que ocupa a menor fatia do mercado de trabalho, o patamar chega a 85%.

No caso dos EUA, André Linhares, advogado especialista em migração para o país, avalia que um dos fatores que impulsionou o êxodo começou em 2016, quando uma mudança jurídica facilitou a obtenção de visto permanente.

— Antes de 2016 era mais difícil ir, tinha que ter uma garantia de emprego. Depois, é preciso demonstrar que se tem condições de conseguir um lá. Em 2018 e 2019 já vemos o início do pico.

Ele explica que, embora a faixa etária mais jovem não seja elegível para o visto mais procurado, ela exerce grande influência nos pais que tomam essa decisão.

— Desde a década de 1990, o perfil de brasileiro que emigra para os EUA mudou bastante. Antes, muitos vinham tentar ganhar a vida à própria sorte, mas hoje é um público bem posicionado, investidor… Não é só por necessidade financeira, mas pela busca de qualidade de vida — explica. — Normalmente, é um brasileiro com família, que parte de um descontentamento em relação ao futuro e procura uma vida melhor para os filhos.

Baptistini avalia que o aumento da emigração brasileira, que começou a dar sinais nos anos 1980 e ganhou força na última década, é acompanhado de uma mudança na visão da juventude e da classe média:

— As pessoas emigram em busca de oportunidades e da vida que julgam que lhes é negada no local de origem. O Brasil deixou de ser percebido como o país do futuro e uma terra de oportunidades.

Fuga de consumidores

Do ponto de vista econômico, à primeira vista o êxodo de brasileiros pode não parecer uma má ideia, considerando o volume de dinheiro que entra no país pela diáspora. Afinal, é comum que muitos enviem ajuda financeira a parentes e amigos no Brasil. Em 2022, o país registrou um recorde de R$ 4,7 bilhões em remessas pessoais vindas do exterior, segundo o Banco Central (BC), o equivalente a 0,47% do Produto Interno Bruto (PIB) do mesmo ano — participação maior que de alguns estados, como o Amapá.

No entanto, Victor do Prado, conselheiro consultivo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), destaca um outro lado da moeda:

— Uma das principais consequências é a fuga de consumidores e a oportunidade perdida em cobrança de impostos. Se estivessem no país, esses brasileiros estariam pagando tributos e contribuindo para o progresso econômico.

E se progresso em setores estratégicos — como pesquisa, tecnologia e defesa — é o segredo para o crescimento, o êxodo de uma parcela mais qualificada de profissionais nessas áreas, a fuga de cérebros, impõe mais desafios. Em especial, quando a concorrência, em níveis de infraestrutura e potencial de ganho econômico em moedas mais fortes, se torna desleal.

— [A fuga de cérebros] é um fenômeno que não é só do Brasil para os EUA, é do mundo inteiro para os EUA.

Migração em rede

Renata Geraissati, historiadora especialista em imigração, avalia que a popularidade de certos destinos em determinados momentos da história, como no caso atual dos EUA, é um efeito não só do bom desempenho econômico do país naquele período, mas também das conexões formadas no local que se retroalimentam, também conhecidas como “migração em rede”.

— [Existe] uma rede de informação que é trocada entre esses primeiros imigrantes que vão para lá e se estabelecem. Cartas, informações, notícias, remessas de capital vão impactando nisso — pontua Geraissati. — A própria ascensão econômica desses primeiros imigrantes acaba servindo de motriz para os outros. Por vezes, os primeiros acabam fornecendo crédito, informação, abrigam seus conterrâneos até se instalarem…

Mesmo a atração motivada pelo vislumbre de sucesso econômico pode ter diferenças a depender do local de destino e do perfil de migrante, explica Alex Guedes, autor do livro “Brasileiros no exterior: o caso da Flórida”. Enquanto a Flórida se tornou um destino de sucesso devido à propaganda dos seus residentes na chamada migração em rede, no Paraguai o principal atrativo são os valores baratos das terras.

Em outros, como o do Japão, a emigração foi fruto de uma política de Estado — por isso, o país é o único onde podemos saber de fato o número de brasileiros, já que a imensa maioria foi de forma regular.

— A migração para o Japão faz parte de um fluxo mais antigo, que começou no final dos anos 1980, quando o país decidiu atrair mão de obra de descendentes de japoneses, estimulando a ida de muitos brasileiros e peruanos — descreve o escritor. — No início era um perfil bem laboral, para trabalhar em setores que ninguém queria, mas com o tempo a comunidade foi mudando, criando negócios focados em outros membros, e pequenos empresários começam a ir. A diáspora cresceu do ponto de vista qualitativo, mas caiu em número.

Fonte: O GLOBO