Segundo estudo do Centro de Formação Prepara Portugal, o país precisa, até 2030, de 1,3 milhão de novos trabalhadores para equilibrar pensões e os imigrantes representam mais de 12% das contribuições.
Pablício Miranda nasceu em Belém do Pará há 45 anos e chegou a Portugal há exatos três anos. No Norte do país, onde trabalha atualmente, ainda não se acostumou com o frio do inverno, mas afirma não se arrepender da decisão de trocar de país. No Brasil, atuava como recepcionista mas em Portugal mudou completamente de área e tornou-se cozinheiro. Detalhe: aprendeu a profissão do zero. “Entretanto, com o tempo, fui me aperfeiçoando e hoje desempenho bem o meu trabalho”, relata o paraense, que trabalha em um restaurante na cidade de Matosinhos, no Porto.
A história de Pablício ajuda a ilustrar um fenômeno que tem impacto direto na economia portuguesa e, em especial, na sustentabilidade do sistema de Segurança Social. Ele integra o grupo de milhares de imigrantes que hoje contribuem para sustentar setores essenciais do mercado de trabalho. “Estamos aqui para ajudar esse país a crescer. Gosto muito de viver aqui e me esforço para sempre fazer o melhor e colaborar da melhor forma. Nós, imigrantes, saímos do nosso país com o objetivo de vencer no exterior. E vamos vencer”
Essa contribuição torna-se ainda mais relevante diante de um desafio estrutural já identificado por estudos técnicos. Uma das pesquisas informa que Portugal precisará de 1,3 milhão de novos trabalhadores até 2030 para garantir o equilíbrio financeiro da Segurança Social, segundo dados fornecidos pelo Centro de Formação Prepara Portugal, com números do Instituto Nacional de Estatística (INE), da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), da Pordata e do próprio sistema previdencial.
Tudo parte de um indicador central da sustentabilidade das pensões: a relação entre trabalhadores ativos e pensionistas. Estudos de referência apontam que o país precisa se aproximar de uma média de 2,5 trabalhadores por cada aposentado, para garantir o financiamento regular das pensões nas próximas décadas. Atualmente, esse indicador situa-se em torno de 1,7 trabalhador por pensionista.
O cenário tem sido analisado de forma continuada pelo imigrante brasileiro Higor Cerqueira, criador e diretor pedagógico da empresa Prepara Portugal. “Com base nos registros oficiais, o estudo estima que, para atingir esse equilíbrio até 2030, seria necessário um reforço acumulado entre 1,2 e 1,3 milhão de trabalhadores ativos líquidos. Em termos estruturais, este volume corresponde à necessidade de compensar a saída de cerca de 500 mil pessoas para a aposentadoria, num país marcado pelo envelhecimento da população”, explica.
85% dos imigrantes estão em idade ativa
As pesquisas foram coordenadas pelo formador Pedro Stob, dentro do curso de Análise de Dados e TI Aplicada à Gestão, e recorrem a séries estatísticas públicas entre 2010 e 2025. Os dados mostram que o número de imigrantes residentes em Portugal passou de cerca de 430 mil em 2010 para mais de 1,5 milhão em 2024. Deste total, aproximadamente 85% estão em idade ativa, entre os 18 e os 64 anos, que é o caso do paraense Pablício Miranda.
Segundo dados do INE e da Segurança Social, e de acordo com a pesquisa do Centro de Formação Prepara Portugal, a taxa de emprego dos imigrantes atingiu 67% em 2025, aproximando-se da taxa dos portugueses, situada em torno de 72% no mesmo período. Esse reforço da população ativa tem impacto direto no sistema de proteção social, num país que apresenta atualmente uma taxa de dependência de idosos superior a 37%.
“Um cenário de ruptura entre contribuintes e pensionistas ocorre quando o volume de contribuições arrecadadas deixa de ser suficiente para assegurar o pagamento regular das pensões, obrigando o Estado a recorrer, de forma continuada, a transferências do Orçamento do Estado, ao aumento de impostos ou à redução das prestações”, alerta Stob.
Ele acrescenta que cada variação de 0,1 nesse equilíbrio corresponde à necessidade de mais 150 mil a 170 mil pessoas trabalhando e descontando. “Em termos simples, pequenas alterações demográficas traduzem-se rapidamente em dezenas de milhares de novos contribuintes necessários para manter o equilíbrio financeiro da Segurança Social”.
Entre 2010 e 2025, a participação dos trabalhadores imigrantes na base de contribuições mais que duplicou, passando de cerca de 3% para uma projeção de 6% do total, diz ainda o estudo. Em valores absolutos, as contribuições dos estrangeiros ultrapassaram 3,6 bilhões de euros em 2024, representando mais de 12% do total arrecadado, com saldo líquido positivo face às prestações recebidas.
Apesar dos indicadores, o estudo alerta para entraves estruturais, como a demora na regularização e no reconhecimento de qualificações, que leva muitos trabalhadores a procurar outros países europeus. “A questão que Portugal precisa enfrentar é quantas pessoas conseguem efetivamente trabalhar, contribuir e permanecer. Quando um profissional qualificado fica meses ou anos impedido de exercer, existe um custo direto para a economia e para a Segurança Social, porque essas contribuições deixam de existir””, afirma Cerqueira.
Avanço em países vizinhos
O investimento em imigrantes, por outro lado, avança em países vizinhos. Na Espanha, o governo anunciou recentemente um pacote de regularização extraordinária que pode beneficiar mais de 500 mil pessoas. Já na Itália, o governo da primeira-ministra Giorgia Leloni – com inspiração na extrema-direita e que defende o controle rígido da imigração – aprovou, em dezembro último, um decreto-lei para flexibilizar a entrada de brasileiros e cidadãos de outros países (que tenham ascendência italiana) com foco em setores afetados pelo envelhecimento da população e pela escassez de mão de obra.
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